Há dias de manhã em que uma pessoa à tarde não pode sair à noite!! Ontem foi o dia!
Depois de uma noite atribulada, longa em pensamentos e curta em horas de sono, acordei com uma dor de cabeça gigante. Não é muito comum em mim ter dores de cabeça por isso decidi não tomar nada logo e aguentar talvez também na tentativa de que, tendo dores, iria sempre pensar mais nelas do que noutra coisa qualquer. A manhã passou a correr e quando dei por mim já eram 11:30h. Não me perguntem o que fiz nessa manhã. Devo ter estado perdida entre dores de cabeça e pensamentos vãos. "Bem, menina Sofia, está na altura de tomares um comprimido e ires dar um mergulho à praia. Acorda para a vida!!" Este foi o raciocínio mental que me tirou de casa se bem que a insistência da Carolina também ajudou. Estava bastante vento e a brisa não era a mais convidativa para um mergulho mas digamos que, como diz a Carolina, estar num sítio destes e passar um fim de semana sem ir à praia é claramente pecado. Tomei então qualquer coisa para aliviar a pressão que sentia na cabeça apesar de saber que não era aí que estava a pressão maior, mas lá consegui enganar o corpo e por algum tempo senti-me melhor, pelo menos, fisicamente.
Apesar da brisa fresca que tentava agitar a calma maré baixa na praia da fortaleza, mantive-me dentro de água durante talvez mais de 1h. Já passava da hora de almoço quando saímos da praia e tinha combinado ir falar com o professor Kabura, um dos empreendedores que acompanho e que tem uma barbearia no Jambesse. Passei por casa para tomar um banho rápido e tirar o sal do corpo enquanto o resto do pessoal foi andando para o Âncora, o restaurante ao lado da nossa antiga casa e o único com pizzas na Ilha, o que o coloca em clara vantagem em relação aos outros apesar da simpatia inconstante da D. Eva, a dona do restaurante, de origem sueca.
Tinha combinado encontrar-me com o Amisse Assane, um outro empreendedor meu às 16h no Jambesse e, com medo de me atrasar em casa do Kabura resolvi passar por cima da hora de almoço e enganar o estômago com umas bolachas de água e sal que comprei no mercado central.
Cheguei a casa do Kabura e encontrei-o a almoçar uma refeição nada típica numa casa moçambicana: mandioca com peixe. Perguntou-me se era servida e eu agradeci mas disse para deixar para ele que está bem mais magro que eu e além disso ainda tinha mais de metade do pacote de bolachas comigo. A nossa conversa começou e foi demorada. No dia anterior tinha ido jantar à D. Mariamo e o Anza, o empregado da barbearia do Kabura, encontrou-me lá e veio-me entregar o livro de registo da barbearia onde ele aponta o valor ganho cada dia. Disse que o Kabura tinha ido à barbearia na sexta-feira e que tinha começado a cortar cabelo e que lhe tinha dito algumas coisas que davam a entender que havia ali uma certa desconfiança da parte do patrão. O Anza diz que não se sentia bem com isso e pediu-me para ir falar com o Kabura. Então ali estava eu, em casa do Kabura, a tentar perceber o que se teria passado. Assim que entrei o Kabura começou a falar sem eu lhe dizer que o Anza já tinha vindo falar comigo. Estive ali até às 15:30h e vou tentar resumir o que se passou para tornar a história o mais clara possível, mas ainda hoje tenho a sensação que nem eu percebi totalmente o que se passou.
Depois de o Kabura ter aparecido na sexta-feira para ir trabalhar com o empregado na barbearia, o Anza lá pensou que ele o queria substituir e pediu a mota ao Kabura para ir "fazer necessidade maior à praia" (já lhes disse que não é aí que se faz mas a verdade é que não existem grandes alternativas). Saiu da barbearia quase mal o Kabura chegou com a mota, eram umas 10h. Não sei se foi uma diarreia ou se ele se enganou e foi para a casa de banho das senhoras, onde todos sabemos que há sempre fila, mas a verdade é que só apareceu com a mota às 13h. Nesse dia o Kabura dava aulas na escola secundária das 18h às 22h e quando eram 17h o Anza pediu novamente a mota ao Kabura mas desta vez para finalidade incerta. O Kabura ainda disse para ele não se atrasar mas o Anza já ia em segunda e gritou apenas uma das expressões mais populares aqui e que quer dizer tudo e nada ao mesmo tempo: "Descansa, hei-de vir!". Chegaram as 18h e nada de moto nem de Anza, 19h..., 20h..., 21h..., e pouco depois das 21h apareceu um rapaz com a chave da barbearia do Kabura que este tinha junto à chave da mota e portanto nem maneira tinha de fechar a barbearia. O Anza tinha tido um problema com a mota e tinha mandado aquele miúdo entregar a chave da barbearia pois imaginava como estaria o patrão. Na verdade o Kabura era um misto de alegria e de raiva pois naquele dia em que tinha ido para ali e acabado por trabalhar sozinho tinha feito 580MTS. A verdade é que o livro de registo dos valores diários feitos na barbearia era bem diferente. o Anza entregava em média 250MTS por dia, e a média nem era muito difícil de calcular nos últimos dias porque a preocupação do Anza em variar os valores e tentar disfarçar o desfalque já tinha desaparecido. Todos os dias o valor era igual o que denunciava algo de errado e foi o motivo que levou o Kabura a passar aquela sexta-feira na barbearia. Já eram 22.30h e o Kabura já parecia a cinderela a olhar para o relógio para tentar perceber como é que ia arranjar uma chave da barbearia para poder fechar a porta e ir para casa, quando o Carlitos, um rapaz que trabalhou lá na barbearia durante umas semanas, apareceu e o Kabura deu-lhe dinheiro para ele ir a casa dele buscar uma chave que lá tinha de reserva e a trazer de volta para o Jambesse. Já passava das zero horas de sábado, como eles dizem, quando o Kabura chegou a casa. Entretanto no sábado foi o Carlitos trabalhar lá para a barbearia porque depois do que se tinha passado na sexta-feira a incerteza da presença do Anza no trabalho era grande. Nesse mesmo dia o Kabura partiu para Nampula porque, vim eu a descobrir no dia seguinte, tinha nascido um filho dele de uma mulher que ele tem em Nampula. Vamos chamar a esta senhora "A Outra" pois eu já conheço uma esposa do Kabura que vive na Ilha, chama-se Suhura e também está quase a dar à luz.
Antes de sair de casa do Kabura ele ainda me disse que talvez nos encontrássemos no Jambesse porque tinha pedido a algumas pessoas que informassem o Anza de que o Kabura queria falar com ele às 18h de domingo, na barbearia. Depois de uma conversa longa com o Kabura em que nenhum detalhe desta história foi esquecido, fui em direcção ao Jambesse, a casa do Amisse buscar "200 paus" que ele me tinha prometido dar. Parece que nem sempre o prometido é devido e o Amisse diz que estava à espera que a mulher chegasse de Nampula para me dar o dinheiro e que no dia seguinte estaria em minha casa entre as 9h e as 10h para me pagar. Ainda o fui ajudar a levar algum peixe a casa da senhora que lhe aluga o espaço no congelador e depois fui à procura do Anza no sítio combinado para lhe contar como tinha corrido a conversa com o Kabura mas não o encontrei e disseram-me que ele não tinha aparecido o dia todo. Entretanto já passavam uns minutos das 17h e decidi ficar por ali até à hora combinada entre os dois para se encontrarem apenas para garantir que corria tudo bem.
(Sofia, estás há 4 meses em África, não tens um curso nem de psicologia, nem de sociologia, e o pouco que estudaste de gestão de conflitos aplica-se a tudo menos a situações entre um moçambicano e um natural do Burundi (não quis dizer burundiano para não errar).)
Enquanto ninguém chegava e num intervalo entre clientes que o Carlitos teve na barbearia vi-o na barraca de calamidades (são as lojas cá do sítio: um plástico no chão com roupa usada ou "nova" por cima ao preço da chuva para nós que não sabemos ser agradecidos pelo muito que temos) a tentar encontrar no monte de roupa alguns babygrows. Perguntei-lhe para que era aquilo e ele disse-me que tinha tido uma filha há 2 dias. O Carlitos não tem muitas possibilidades e percebi nele aquele desejo de chegar a casa com algo para a filha mas o vazio nos seus bolsos não lhe permitia tal luxo. Percebi então que os babygrows custavam 10MTS cada um o que equivale a uns 25 cêntimos. Não resisti e comprei 5 babygrows e ofereci ao Carlitos mas ele pediu-me que fosse eu a ir lá levá-los pessoalmente e assim ficou combinado.
Entretanto chegou o Kabura pois já eram quase 18h e o Anza apareceu um tempo depois. Ao início confesso que me estava a rir por dentro com o Kabura sentado de um lado e o Anza de outro como se fossem duas crianças da escola zangadas uma com a outra. Lá fomos conversando também na presença do Carlitos que se veio a revelar o único com sanidade mental no meio daquilo tudo. Tentei que eles se entendessem e chegou a um ponto da conversa em que parecia que se estavam a entender e a chegar a uma conclusão apesar de estarem a escolher quebrar a relação de patrão e empregado que existia entre eles. O Kabura queria apenas que o Anza lhe entregasse a mota como estivesse, a chave da mota, a chave da barbearia e o contrato. Pois o Anza aceitava tudo menos entregar-lhe o contrato e já não vos sei contar em que parte da conversa íamos mas o que eu mais temia aconteceu mesmo. Começaram os dois à pancada e aqueles que me conhecem devem imaginar os berros que mandei para tentar parar aquelas duas crianças que estavam ali no chão a espernear. Abreviando a história, num sítio que parecia começar a ficar com pouco movimento, rapidamente se juntaram umas 50 pessoas a assistir à discussão e à pancadaria. Ainda se pegaram mais duas vezes mas depois de algumas conversações foi cada um para seu lado e fiquei eu e o Carlitos no meio do Jambesse com o dinheiro que se tinha feito naquele dia na barbearia, a mota do Kabura, a chave da mota e duas chaves da barbearia. Disse ao Carlitos que íamos então de mota até à Ilha e a mota ficaria em minha casa. Convém acrescentar que nalguns intervalos de toda aquela confusão liguei para o Pi e para a Marta mas a verdade é que os nervos estavam a dar-me para rir e apesar de terem perguntado se eu queria que fossem lá ter comigo, eu disse sempre que aquilo acabaria entretanto e que eu ia logo para casa.
Já em cima da ponte, mais ou menos a meio caminho, quando eu pensava que nada mais podia acontecer, a mota parou. Parecia que estava mesmo sem combustível e talvez um pouco estragada também. Passaram algumas motas mas era difícil alguma delas nos ajudar. Levavam todas entre duas a três pessoas e mais ao fundo consegui avistar as luzes de um carro. Nesse momento o Carlitos disse-me para não mandar parar o carro porque nos iam cobrar dinheiro de certeza. Eu tentei arriscar na mesma mas rapidamente me arrependi. Aquele senhor muito simpático lá nos ajudou e fui então sentada no lugar da frente, ao lado do condutor e o Carlitos na mota do lado de fora, agarrado à minha porta. Lá fomos nós andando devagarinho até chegarmos à Ilha. Por momentos aqueles 2km que faltavam para chegar à Ilha começaram a tornar-se demasiado longos. O Carlitos deve ter-me chamado mal entrei no carro e aquele senhor decorou o meu nome e em jeito de tarado engatatão perguntou: “Então o teu nome é fofa Sofia?” ao que eu respondi: “Não. É só Sofia mesmo.” A conversa não ficou por aqui e agarrou-me ainda a mão e usou a desculpa do cravo que tenho no joelho para perguntar se era uma ferida e mexer-me na perna mas eu, no meu jeito bruto, que confesso andava um bocado adormecido aqui em Moçambique, disse-lhe para se acalmar antes que eu me chateasse. Mal passámos a cancela da ponte, ainda o carro ia em andamento e já estava eu a tentar saltar fora. O senhor começou a dizer que me podia levar a casa e eu disse que estava com o Carlitos que não precisava de nada. Mas a resposta não lhe foi satisfatória e ele começou a falar em macua com o Carlitos na tentativa de descobrir onde eu vivia. Fiz uns olhos gigantes para o Carlitos e entre dentes balbuciei “NADA!!”, que é o mesmo que dizer não, mas há expressões que nos ficam entranhadas e quando damos por nós já “desconseguimos falar português correcto”. O Carlitos respondeu-lhe qualquer coisa mas entretanto consegui descer do carro e ir com o Carlitos para a bomba que é a 50m da ponte. Lá paguei 1l de gasolina para a mota mas entretanto o homem do carro lá continuava de volta a querer despedir-se e eu quase com vontade de lhe tirar o abono de família para ver se ele acalmava as hormonas. Depois de pormos gasolina pensei “Agora ponho-me a andar e este tipo desampara-me a loja!”. A mota não pegava. O problema não era só da falta de combustível, a mota estava mesmo estragada. Depois de muitas tentativas e do outro senhor continuar a insistir em ajudar lá lhe mandei um berro daqueles mesmo bons que até eu me assusto com a potência dos meus nervos e ele lá se foi embora e a mota lá arrancou. Fomos directos a casa do Carlitos para eu levar os babygrows à bebé e o Carlitos disse-me que lhe tinha posto o nome de Sofia e tinha sido por minha causa (isto já deve ser um bocado conversa fiada, mas de qualquer maneira é bonito e fica sempre bem). A mãe e a bebé gostaram muito e apesar de tanto uma como outra dizerem poucas palavras consegui perceber como estavam contentes. Saímos dali e pedi ao Carlitos que me levasse a casa na mota e me deixasse lá a mota porque assim tinha a certeza que o Kabura apareceria cá. Cheguei a casa e enquanto contava ao pessoal cá de casa o motivo de ter uma mota dentro de casa e de ter chegado àquelas horas a um domingo, ia-me rindo mas sentia uma vontade enorme de chorar. Fui para o quarto e lavei-me em lágrimas. Precisava de libertar aquela pressão toda de alguma forma. A Marta e a Carolina lá estiveram ao pé de mim e entretanto batem à porta do quarto. Era o Pi com uma garrafa de Famous Grouse! Talvez ajudasse a afogar as mágoas…
O que vale é que a noite terminou numa mesa de 12 pessoas a jantar apas e a mandar piadas de uma ponta para a outra da mesa e consegui rir tanto quanto chorei.
“Afinal em 4 meses de experiências maravilhosas, o que é ter um dia assim?”
É verdade, não é nada.